A prematura notícia da morte do euro
Tudo leva a crer que eram no mínimo prematuras as notícias da morte da Europa –ou, ao menos, do euro, vítima do vírus de uma Grécia entalada em dívidas e com um formidável deficit público.
A notícia da morte foi difundida interessadamente pelos corsários do mercado financeiro, para ganhar dinheiro com a perspectiva de quebra da Grécia. O instrumento mais usado chama-se CDS (credit default swap), uma espécie de seguro contra calote, mas que tem o letal defeito de romper uma regra saudável velha de 250 anos do ramo de seguros. Até os anos 90, pouco mais ou menos, só podia fazer seguro sobre algo quem tivesse interesse direto naquilo que se assegurava. O seu vizinho, por exemplo, não podia fazer um seguro sobre sua casa porque não tem interesse direto nela.
Mas o CDS rompeu a regra e seu vizinho passou a poder fazer um seguro sobre a sua casa. Em consequência, passou também a ter interesse em que sua casa pegasse fogo para que ele recebesse o seguro. Podia até acender o fósforo.
Os corsários do mercado financeiro acenderam o fósforo CDS e tascaram fogo na casa Grécia.
Vê-se, agora, que a casa era algo menos insegura do que se propagou, tanto que a Grécia colocou papéis no mercado na quantidade desejada. E houve demanda até por mais. Pagou, claro, taxas exorbitantes, o que é parte do jogo dos CDSs.
A crise grega continua no noticiário, porque está longe de resolvida, mas sumiu a hipótese de o seu contágio levar ao fim do euro, a moeda comum de 16 países europeus, Grécia inclusive.
Tanto desapareceu que o novo alvo dos corsários é a libra esterlina, a moeda do Reino Unido, que faz parte da União Europeia mas não aderiu ao euro.
O que se está vendo é uma brutal diferença de velocidade entre a ação dos agentes financeiros, tanto a positiva como a deletéria, e a dos poderes públicos. Os mercados atacam em questão de segundos, minutos quando muito. Os governos levam meses, até anos, para reagir. Prova-o o fato de que faz pelo menos 15 meses que o G20, o clubão das grandes economias, Brasil inclusive, fala em uma nova e mais rígida regulação do sistema financeiro. Até agora, nada.
A conversa de agora, ao menos na Europa, novo epicentro das dificuldades, é a criação de um certo FME (Fundo Monetário Europeu), mais ou menos nos moldes do FMI (Fundo Monetário Internacional), mas restrito ao palco europeu. “Para assegurar a estabilidade da zona euro, necessitamos uma instituição que conte com a experiência do Fundo Monetário Internacional e poderes de intervenção análogos”, diz, por exemplo, Wolfgang Schäuble, ministro de Finanças da Alemanha, o país que dita os rumos desse tipo de iniciativas na União Europeia.
Resta torcer para que essa necessidade esteja atendida antes do próximo ataque.
* Clóvis Rossi é repórter especial e membro do Conselho Editorial da Folha, ganhador dos prêmios Maria Moors Cabot (EUA) e da Fundación por un Nuevo Periodismo Iberoamericano.



